2. ENTREVISTA 27.3.13

AGNELO QUEIROZ - "TIREI O CRIME ORGANIZADO DE DENTRO DO GDF"

Governador do DF diz que sofreu ameaa de morte, recuperou o prestgio de Braslia dentro e fora do Pas e afirma que sua gesto est comeando agora
por Mrio Simas Filho e Srgio Pardellas

 ENFRENTAMENTO - Governador do DF diz que foi alvo de mafiosos que no tiveram espao em seu governo
 
Horas antes de conceder a seguinte entrevista  ISTO, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, havia desembarcado de um voo procedente dos Estados Unidos. Apesar de estar saindo de um momento conturbado, em que viveu sob artilharia pesada da oposio, o governador era o retrato de um poltico animado. Na sexta-feira 15, ele assinou um tratado tornando Braslia a primeira cidade da Amrica do Sul oficialmente irm de Washington. Com isso, assegura Agnelo, sero realizados intercmbios entre tcnicos de vrias reas das duas capitais, bem como haver a promoo de inmeras misses empresarias. Ainda na semana passada, Agnelo manteve diversas reunies com bancos e investidores internacionais. Na entrevista, o governador afirma que seu governo est apenas comeando e revela inclusive ter sofrido ameaas de morte no incio do mandato. Agnelo no descarta a possibilidade de disputar a reeleio e admite que a populao do Distrito Federal ainda est traumatizada depois de duas gestes que se notabilizaram pela corrupo, o que levou  incrvel situao de abrigar quatro governadores em apenas um ano.
 
O governador define como maior virtude de seu mandato o combate incansvel aos feudos que se encastelavam no governo e, quando colocado diante das acusaes que lhe so feitas pelo Tribunal de Contas, se diz alvo de brigas polticas. Agnelo, no entanto, prefere no olhar para o retrovisor e vislumbra no horizonte a inaugurao do novo Estdio Nacional, o mais sustentvel do Pas, segundo ele, que ter energia solar e reaproveitamento de gua.

"No d para comparar o preo de uma arena como essa com o de um estdio comum.  como comparar um fusca com uma Ferrari"

O presidente Lula tinha me alertado sobre as ameaas que receberia, quando eu venci a eleio. S pude compreender a dimenso disso muito depois"

Isto - Comea a segunda metade de seu mandato e o governo do Distrito Federal, que nas ltimas gestes esteve submerso em escndalos de corrupo, ainda  visto com alguma desconfiana.

Agnelo Queiroz - Pegamos uma terra arrasada. Nos dois ltimos anos, fizemos um enorme esforo para recuperar a credibilidade interna e externa. Havia um cenrio de inadimplncia em todas as reas do DF e s agora, no fim de 2012, conseguimos sanear tudo e deixar Braslia em condies de receber recursos. Tive que passar vergonha em organismos internacionais, como o Banco Mundial, para reconstruir nossas relaes internacionais. A situao era dramtica. Herdei uma tragdia. Mas em 2013 e 2014 os resultados comearo a aparecer.

Isto - Mas o sr. continua alvo de diversas acusaes de superfaturamento, por exemplo.

Agnelo Queiroz - O passivo  muito negativo. Fui atacado at por segmentos vinculados ao crime organizado. Quando eles perceberam que no teriam entrada no meu governo, me atacaram da forma mais vil possvel. Partiram para ataques a minha pessoa e a meus familiares. Foi violento.

Isto - O sr. sofreu ameaas de morte?

Agnelo Queiroz - At isso. E mais. Houve uma ofensiva para derrubar um governo democraticamente eleito. 

Isto - O sr. mudou hbitos de segurana?

Agnelo Queiroz - Foi intensificada a segurana. E muitas investigaes ainda esto em curso. Enfrentei grupos mafiosos. Feudos h anos responsveis pelo atraso da cidade.

Isto - Que feudos so esses?

Agnelo Queiroz - Por exemplo, a mfia dos transportes. Depois de 50 anos vamos fazer uma licitao pblica. Foram 135 aes judiciais para impedir a licitao que hoje est em curso. Trata-se da maior licitao do Pas. Tivemos, inclusive, que assumir o controle administrativo de uma das maiores empresas do setor. Ela simplesmente retirava os nibus de circulao. De 350, s estavam rodando 186 nibus. Em cinco dcadas, nenhum governante ousou desafiar esse feudo.

Isto - H outras mfias?

Agnelo Queiroz - Enfrentamos setores que dominavam a coleta de lixo. Essa licitao tambm est em curso, porque precisamos fazer uma mudana na poltica de resduos slidos. Combatemos ainda grupos da rea da sade, que s vendiam para meia dzia e faziam a ttica de desabastecimento para forar a compra emergencial. E quando voc enfrenta isso voc est mexendo numa casa de marimbondo. Outro feudo que existia era no setor da ressocializao de jovens. Esse sim envolvendo o crime organizado. Mas vamos desativar o Caje e construir sete unidades com capacidade para 90 internos com o objetivo de recuperar jovens. Mas enfrentar tudo isso no tem sido fcil.

Isto - H resistncias dentro do governo? Existem rumores de que a relao com o vice-governador no  das melhores.

Agnelo Queiroz - O governo tem unidade. 

Isto - O sr. credita os ataques sofridos a grupos que foram contrariados pelo governo, mas o Tribunal de Contas tem feito vrios questionamentos como os que envolvem superfaturamento na construo do Estdio Nacional de Braslia.

Agnelo Queiroz - Isso tambm faz parte da guerra poltica.

Isto - O tribunal diz que houve superfaturamento e duplicao de servios. O oramento inicial era de R$ 696 milhes e pulou para R$ 1,3 bilho.

Agnelo Queiroz - Tudo j havia passado pelo tribunal. A licitao inicial no inclua a obra da cobertura do estdio, das cadeiras, do gramado, reas de tecnologia e modificaes que foram pedidas pela prpria Fifa. Foram feitas outras licitaes, por isso houve o aumento do valor. Estamos fazendo tudo com muito rigor. Trata-se de uma arena multiuso de primeiro mundo. Um monumento que harmoniza com a cidade e que est pensando na sua viabilidade econmica. O estdio vai trazer recursos para a cidade. Inclusive ser o primeiro estdio sustentvel do mundo. 

Isto - O Distrito Federal no  uma cidade que abriga clubes tradicionais de futebol. Dessa forma, seria necessria uma obra dessa envergadura?

Agnelo Queiroz - Por isso estamos fazendo uma arena multiuso. Ser um centro cultural, desportivo e comercial. Teremos restaurantes, teatros, lojas que agregaro valor  nossa economia. Teremos programaes especiais nos fins de semana, quando normalmente a cidade fica mais vazia. O estdio tambm vai colocar a cidade no roteiro de shows internacionais, o que no acontece hoje. No d para comparar o preo de uma arena como essa com o de um estdio comum.  como comparar um fusca com uma Ferrari.

Isto - Existe ainda a denncia sobre o superfaturamento da merenda escolar.

Agnelo Queiroz - A compra foi emergencial, por isso o preo foi ligeiramente mais alto. Fizeram um recorte. Disseram que compramos lata de leo a R$ 4,99, enquanto no mercado custaria R$ 3. Isso ocorreu porque vrios fornecedores romperam o contrato e tivemos que fazer uma nova licitao. Tentamos aderir a uma ata de preos do Ministrio da Defesa, mas o fornecedor no tinha capacidade de entregar ao Exrcito e ao GDF ao mesmo tempo. Ento tivemos que fazer compra emergencial para evitar o desabastecimento.  Cabe inclusive uma ao administrativa contra esses fornecedores que romperam o contrato. E isso est ocorrendo. Jamais pode ser considerado superfaturamento.

Isto - No PT, o ex-presidente Lula fala claramente em sua reeleio. O sr. est de olho em 2014?

Agnelo Queiroz - Nossa situao  excepcional. Em 2010, tivemos quatro governadores. Passei dois anos arrumando a casa. Foi um sacrifcio muito grande. Meu objetivo  terminar um bom mandato  frente da cidade. Recuperar a autoestima e a credibilidade. E a populao j comea a perceber a mudana. Tenho nmeros que comprovam o crescimento da minha popularidade. O governo est muito bem avaliado, segundo pesquisas internas minhas.

Isto - E 2014?

Agnelo Queiroz - Agora vamos investir R$ 3,5 bilhes em um nico ano, o equivalente a quatro anos de investimento da gesto anterior. Ento, recuperamos a credibilidade da cidade, sua capacidade de receber recursos e partiremos para ampliar os investimentos pblicos.  

Isto - O sr. pretende reproduzir a aliana do governo federal em 2014?

Agnelo Queiroz - Temos 17 partidos na nossa base. Fui eleito com o apoio de 11 legendas. Acredito que vamos para uma disputa pelo menos mantendo essa coalizo, na qual se inclui o PMDB.

Isto - Nos ltimos dias, o vice-governador Tadeu Filippelli, do PMDB, foi visto ao lado do ex-governador Joaquim Roriz, e especulou-se sobre a reedio da parceria entre os dois. Como o sr. recebeu essa notcia?

Agnelo Queiroz - Os dois apenas se cumprimentaram numa missa. No vejo que isso possa evoluir. Superestimaram um aperto de mos.  Se eu estivesse l faria a mesma coisa.  Nossa aliana com o PMDB est mais fortalecida do que no incio. 

Isto - Qual , na sua opinio, a principal marca do seu governo?

Agnelo Queiroz - Cumprimos um papel histrico. Na verdade,  agora que todas as polticas pblicas desenvolvidas por ns daro resultado. Reflexo da nossa gesto propriamente dita. Temos, agora, uma cidade com suas contas em dia e sem inscrio em cadastros de inadimplncia. Recuperamos a credibilidade nacional e internacional. Tenho muito a fazer ainda, mas tirei o crime organizado de dentro do GDF. Vieram para cima de mim com muita violncia, porque perceberam que no tinham como participar do meu governo.

Isto - O povo tem essa percepo?

Agnelo Queiroz - Meu secretrio de Transparncia, responsvel por fazer 14 mil auditorias no governo, at foi convidado para ser vice-ministro da CGU. Graas ao excelente trabalho desenvolvido e com absoluta transparncia. Somos exemplo de poltica de transparncia no Pas. E isso foi fruto de uma ao de governo. Se no fizesse isso, seria engolido pelos vcios estabelecidos.

Isto - As ameaas que o sr. sofria cessaram?

Agnelo Queiroz - Sim. Partiram para me desconstituir. Fui transformado num obstculo para esses grupos poderosos. Mas j sabia que iria fazer esse enfrentamento. O presidente Lula tinha me alertado sobre as ameaas que eu receberia, quando venci a eleio. S pude compreender a dimenso do que ele disse muito depois. De qualquer forma, levantamos a cabea e levamos o governo para outro patamar.


